quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A dança do passinho menor


Uma nova batalha, sem armas, está em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Menores de idade, meninos na maioria das vezes, disputam para saber quem é o dançarino mais criativo da cidade. Com câmeras digitais, celulares e webcams, filmam suas performances, sempre tentando passos novos e cada vez mais difíceis de executar. “Pode copiar agora!”, costumam dizer na descrição dos vídeos. Outros participam das filmagens em grupo, levando para a internet o desafio feito na esquina de casa. O melhor ganha apenas o reconhecimento dos demais, e a maior quantidade de acesso e de aprovação no YouTube. O ‘passinho do menor’, ou ‘passinho da favela’, virou moda e começa a conquistar relevância cultural na cidade.
Confira alguns dos melhores dançarinos no vídeo abaixo:
A trilha sonora dos vídeos é o funk, outro fruto da criatividade das favelas. Nos anos 1980, um grupo de DJs se apropriou do hip hop dos Estados Unidos – principalmente artistas como Afrika Bambaataa e o ritmo e a sensualidade do movimento Miami Bass, da Flórida – para criar as primeiras montagens do que seria conhecido como funk carioca. Seguindo o mesmo caminho, quase 30 anos depois, crianças de favela se apropriaram dos movimentos de ritmos distintos como break, samba, frevo e kuduro angolano – com alguns passos de Michael Jackson, claro – para criar o ‘passinho’. “O hip-hop foi um movimento de três elementos: rap era a música, break era a dança e grafite era a arte visual. Com o ‘passinho’, o funk já tem seu break, afirma Silvio Essinger, jornalista e autor do livroBatidão – Uma história do funk.
Essinger será um dos jurados do primeiro concurso oficial do estilo, a Batalha do Passinho. A ideia foi do músico Rafael Nike e do jornalista e escritor Júlio Ludemir, autor de livros como No coração do comando e Sorria, você está na Rocinha“Nossa ideia é levar o ‘passinho’ a um público intelectualizado, transformar em um produto cultural”, afirmaLudemir.
As eliminatórias serão em três favelas na Zona Norte: Borel (16 de setembro), Andaraí (17 de setembro) e Salgueiro(18 de setembro). As três foram recentemente ocupadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, mas já foram símbolo do domínio do tráfico de drogas. “Embora a polícia tenha levado paz, ainda não levou uma alternativa de lazer a essas comunidades. A palavra ‘funk’ ficou proibida nos morros pacificados, e só alguns bailes continuam funcionando nas favelas com UPP”, afirma Ludemir. A final será na unidade cultural do Sesc Tijuca, um palco da classe média carioca, no dia 25 de setembro.“A classe média se apropria, mas o menino se apropria também do ambiente, volta para a favela diferente”, diz.
É óbvio que o funk carioca sempre foi associado à dança. Qualquer baile funk do Rio tem multidões de dançarinos informais, alguns fazendo coreografias em conjunto e uma grande maioria de meninas que explora a vertente sensual do estilo. Desde que o funk começou a ter letras em português, e não apenas samplers, no início dos anos 1990, muitos foram os sucessos como Dança da BundinhaDança da CabeçaDança do Canguru, todas criadas para serem copiadas nos bailes e, com o sucesso do funk nas rádios e na TV, também nos prédios da classe média.
Desta vez é diferente. O ‘passinho’ não está relacionado a uma música de sucesso, e não é para ser copiado, e, sim, superado. Se a classe média quiser participar, terá que entrar na dança. É uma disputa de talentos, e o YouTube é o palco principal.
Fonte: News Press Release's

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